Os jogos de azar são considerados um passatempo popular no mundo de hoje em dia, todavia não são um conceito novo. A maneira como jogamos até pode ter evoluído, contudo, o jogo de azar em si sempre foi uma das formas mais antigas de entretenimento.
Rituais orientados para descobrir se a pessoa tem a sorte e qual é o destino dela são documentados em alguns dos mais antigos livros e textos religiosos. O que é interessante, pois, para alguns, o jogo pode ser considerado como uma atividade errada ou até um pecado, no entanto, será que as crenças religiosas sustentam estes pensamentos sobre o assunto?
Antes de observarmos qual é a relação entre a religião e o jogo, julgamos que é importante esclarecer que estamos a falar sobre o jogo de azar como um passatempo apreciado por muitos com o único propósito de entretenimento. Além disso, mencionemos que, como sempre, qualquer pessoa que jogue deve sempre fazer isto com responsabilidade e cabe unicamente a ela garantir a sua segurança.
Então, o que as cinco principais religiões do mundo dizem sobre o jogo de azar e como as opiniões e pontos de vista sobre o jogo variam entre as diferentes religiões?

Cristandade

A Bíblia frequentemente faz referência à prática de lançar a sorte, que, como mencionamos anteriormente, é a prática de usar métodos, tais como o lançamento de dados, para tomar decisões sem preconceitos. Uma das citações mais notáveis do lançamento da sorte está descrito no livro de Êxodo — livro da Bíblia onde se narra a saída dos hebreus do Egito —, quando Joshua determinou onde doze tribos resolveriam as disputas usando esse método.
Também foi descrito por escritores do Evangelho que, na crucificação de Jesus, os soldados romanos lançaram sortes para decidir quem receberia as suas roupas. Outra referência na Bíblia ocorre ao decidir por quem substituir o discípulo Judas Iscariotes. O seu substituto, São Matias, foi escolhido por sorteio.
Também é prática comum que as igrejas cristãs usem métodos como rifas para angariar dinheiro para reparos ou manutenção da igreja e as festas da igreja costumam apresentar jogos como tômbolas para apoiar os seus esforços de arrecadação de fundos.

Hinduísmo

Apesar de o jogo de dados fazer uma grande parte de um dos principais textos do sistema de crença hindu, o hinduísmo tende a ver o jogo de uma forma negativa.
O jogo de azar, jogado simplesmente para entretenimento, provavelmente seria desaprovado na crença do hinduísmo e em algumas práticas hindus o jogo de qualquer tipo é proibido, enquanto outras seitas consideram as intenções e resultados do jogo para decidir se é moral exercer esta atividade ou não.
É no texto hindu, chamado Mahabharata, que se acredita ter sido escrito nos séculos VIII e IX A.C., que o jogo de dados que mencionamos constitui uma parte importante do segundo livro, o Sabha Parva. No Sabha Parva, ou “the book of the Assembly Hall”, como é também conhecido, o rei Yudhishthira é tentado a jogar um jogo de dados para conquistar o reino. Durante este jogo de dados, Yudhishthira é induzido a entregar todo o seu reino e a sua família é enviada para o exílio por 12 anos. Logo, esta deve ser uma lição para os leitores do livro sagrado para se afastarem destas atividades pouco confiáveis.

Budismo

Sendo uma das religiões mais antigas do mundo, o budismo é reconhecido como uma das religiões mais flexíveis. Portanto, não é nenhuma surpresa que o budismo tenha uma visão bastante aberta no que toca aos jogos de azar. Esta crença classifica o jogo em três tipos: recreativo, habitual e viciante.
Embora o jogo viciante não seja tolerado na fé budista, o jogo para fins recreativos e mesmo habituais é aceite. Os jogadores são, no entanto, encorajados a serem cuidadosos e sensatos ao fazer apostas para garantir que estão a jogar com responsabilidade e evitar cruzar a linha e tornar-se viciante no jogo.
Curiosamente, apesar de as opiniões na fé budista serem bastante flexíveis acerca dos jogos de azar, nem a realização de loterias e rifas, nem a compra de bilhetes para os mesmos podem ser usados para angariar fundos para organizações budistas.

Judaísmo

A prática de jogos de azar não aparece muito nos textos judaicos. No entanto, jogar por dinheiro era tradicionalmente desaprovado pelas autoridades e os jogadores profissionais não eram vistos como testemunhas confiáveis nos tribunais, dado que não eram considerados como as pessoas de valor, que contribuem para este mundo com a sua profissão.
Dito isso, a Torah menciona a cleromancia, isto é, o sistema de previsão do futuro através do lançamento de um objeto, a prática de usar dados ou paus de diferentes comprimentos para tomar decisões, semelhante a maneira como no mundo moderno atiramos uma moeda, fazemos o sorteio, tal como escrito na história de Jonas e a Baleia.
Vale a pena mencionar que as celebrações do Hanukkah geralmente incluem o dreidel, um jogo de pião, geralmente jogado num ambiente familiar, onde os jogadores apostam pequenas quantias para conseguir um determinado resultado.
Também, em algumas sinagogas, um certo grau de jogos de azar são incentivados em Purim, uma celebração judaica que comemora a salvação dos judeus persas do plano de Hamã.
As crenças judaicas declaram que, desde que seja por uma boa causa, as atividades de angariação de fundos podem incluir loterias e rifas. Líder do Judaísmo Conservador no Reino Unido, Rabino Louis Jacobs, afirmou que jogar cartas, apostar em cavalos e participar de jogos de azar são aceites no Judaísmo, desde que as pessoas sejam cuidadosas e responsáveis.

Islão

O jogo é geralmente considerado proibido no Islão. No entanto, o Alcorão permite jogos de azar em certas circunstâncias, geralmente quando é uma vitória garantida. Isso diz que a crença permite não desperdiçar dinheiro e valorizar o trabalho árduo que envolve a aquisição de riquezas. O Profeta Maomé disse no Sunan Abu Dawud que “As apostas são permitidas apenas para corridas de camelos e cavalos, ou no campeonato de lançamento das flechas.” Portanto, embora o jogo seja tipicamente desaprovado no Islão, aplicam-se algumas exceções.
Ainda que se acredite que essas exceções foram incluídas para ajudar a encorajar os primeiros muçulmanos a estarem prontos para se defender e não apenas para se divertir. O jogo é proibido em muitos países muçulmanos, e o não cumprimento dessas leis pode resultar em penas, incluindo multas e prisão. Países como o Golfo Pérsico têm uma visão mais descontraída do jogo. Turistas e não crentes podem jogar sob supervisão estrita, mas essas regras flexíveis não se aplicam aos muçulmanos.

Embora cada religião pareça ter a sua própria posição sobre o jogo, é um tema comum em todos os sistemas de crenças que o jogo para entretenimento é geralmente considerado não muito problemático, desde que os jogadores sejam cuidadosos e joguem com responsabilidade. No entanto, o jogo extremo ou o jogo viciante não são permitidos e são vistos como um grande problema.